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Plantas Transgênicas

PLANTAS TRANSGÊNICAS



Os avanços das ciências, especialmente nas áreas da genética e da biologia celular, criaram a partir do final do século XX, polêmicas que saíram dos laboratórios de pesquisa e foram parar nos gabinetes de governantes, escritórios de grandes empresas, casas legislativas, editoriais de jornais e revistas, e até bares e residências do mundo todo. Estes debates têm o poder de envolver pessoas dos mais variados níveis culturais e classes sociais, sob o mesmo tema. Entre os principais assuntos envolvidos nestes debates estão a clonagem humana e o desenvolvimento de plantas transgênicas. Ativistas do mundo todo se manifestam contrários à produção ou comercialização de grãos oriundos de plantas transgênicas. Grande parte dos protestos tem motivação política, e em virtude da falta de esclarecimento da grande maioria da população, consegue criar no público consumidor a idéia de que alimentos obtidos de plantas transgênicas são um risco para a humanidade. Embora grande parte da aversão do consumidor por este tipo de produto deva-se a falta de informação, ou ainda, pela má informação, a ciência tem feito muito pouco para contribuir com o esclarecimento da população a respeito de plantas transgênicas. Por este motivo, estamos apresentando o texto abaixo, onde pretendemos esclarecer alguns pontos importantes a respeito do assunto.

O que são as plantas transgênicas

Plantas transgênicas são plantas em que foram introduzidos um ou mais genes vindos de um outro organismo (outra espécie de planta, animal, bactéria, etc...), pelas técnicas da engenharia genética. São conhecidas também como organismos geneticamente modificados (OGM), sendo que este termo aplica-se também a animais e bactérias transgênicas. Por enquanto, o objetivo de se obter plantas transgênicas tem sido o de diminuir os custos de produção (plantas resistentes a pragas, doenças ou herbicidas) ou de aumentar a qualidade nutricional do produto (melhorando sua aparência, conteúdo nutricional, etc...). OGMs são obtidos utilizando-se a biotecnologia, mas é importante reconhecer que OGMs e biotecnologia não são a mesma coisa. O termo "biotecnologia" engloba um grande campo de pesquisa, onde a obtenção de OGMs é apenas uma parte.

Obtenção das plantas transgênicas

Plantas transgênicas são obtidas pela engenharia genética, através da transferência de genes que codificam para características desejáveis, de um organismo quaisquer para a espécie que se quer transformar. Em primeiro lugar, é necessário identificar o(s) gene(s) responsável(eis) pela característica de interesse, e isolá-lo. Este trabalho requer grandes investimentos no seqüenciamento dos genomas de diversas espécies de organismos vivos. Uma vez identificado e isolado o gene, ele pode ser transferido para uma célula da planta que se quer transformar, utilizando uma das diversas técnicas disponíveis para isto. As técnicas mais comumente utilizadas são o bombardeamento de genes, e o uso da bactéria Agrobacterium tumefaciens. No bombardeamento de genes, utiliza-se micro-partículas (geralmente de ouro) cobertas com muitas cópias do gene, que são literalmente bombardeadas por um aparelho chamado Canhão Biobalístico sobre algum tecido da planta que se quer transformar. Neste bombardeamento utiliza-se uma pressão suficiente para que as partículas cobertas com o gene atravessem a parede celular e se alojem no interior da célula, onde liberam os genes que estavam aderidos a sua superfície. Algumas partículas podem se localizar no núcleo da célula, e as cópias do gene liberadas podem ser inseridas no genoma da célula. Na técnica mediada pela bactéria Agrobacterium tumefaciens, insere-se primeiro o gene na bactéria, e depois infecta-se algum tecido da planta que se quer transformar, com esta bactéria. Este tipo de bactéria tem como característica transferir parte de seu DNA para o genoma das células que infecta. Em algumas células poderá transferir o gene de interesse. Independente do método de transformação, o gene será inserido aleatoriamente em um ou mais cromossomos da célula receptora. Como nem todas as células receptoras recebem o gene, é necessário identificar quais as células que realmente foram transformadas, geralmente crescendo estas células em um meio seletivo. As células que se desenvolverem são induzidas a se regenerar, e produzir uma planta. As plantas obtidas são então testadas para se certificar que o gene está presente e funcional. Além disso, o número de cópias inseridas também deve ser determinado. Para a maioria dos eventos, apenas uma cópia é permitida. Plantas transgênicas são produzidas principalmente quando o gene que se quer introduzir não existe na espécie, e portanto a transferência sexual (cruzando-se duas plantas, como no melhoramento convencional) não pode ser realizada. Uma vez obtida a primeira planta transgênica para um determinado evento (gene), a obtenção de outras variedades transgênicas para este evento é feita como qualquer outra característica em um programa de melhoramento, ou seja, cruzando-se a planta transgênica com diversas variedades, e selecionando-se as progênies superiores. Por exemplo, todas as variedades de soja transgênica resistentes ao herbicida Glifosato (conhecidas como soja Roundup Ready®) tem como origem do gene, uma única planta.

Benefícios das plantas transgênicas

- Aumento na produtividade

A chamada primeira geração de produtos transgênicos teve como objetivo reduzir os custos de produção e melhorar a rentabilidade dos produtores. Grande parte das variedades transgênicas hoje confere resistência a algum tipo de praga, ou tolerância a algum tipo de herbicida. Plantas transformadas com o gene Bt, que codifica a toxina produzida pela bactéria do solo Bacillus thuringiensis, e que é tóxica para muitos tipos de insetos, necessitam de menor quantidade de inseticidas, reduzindo o custo de produção e aumentando a produtividade, por reduzir os danos causados pelas pragas. Alguns trabalhos realizados na Universidade da Carolina do Norte têm demonstrado que a economia de inseticida e/ou o aumento na produtividade tem incrementado a rentabilidade de produtores de milho Bt em US$ 7,00 a US$ 36,00 por ha nos EUA. Lavouras cultivadas com variedades tolerantes ao herbicida Glifosato, além de sofrerem menor competição com as plantas invasoras, permitem uma economia no custo dos herbicidas. O mesmo estudo citado acima relata um aumento na rentabilidade de lavouras de soja tolerantes ao herbicida Glifosato de US$ 14,00 por ha, nos EUA. Além disso, estes dois tipos de variedades transgênicas trazem benefícios ao meio ambiente, pela redução do uso de agrotóxicos nas lavouras. No ano de 2000 foram cultivados, em todo o mundo, 32,8 milhões de ha de lavouras com variedades tolerantes ao herbicida Glifosato, 8,3 milhões de ha com variedades resistentes a insetos (Bt), e ainda 3,1 milhões de ha com variedades que eram simultaneamente tolerantes ao herbicida e resistentes a insetos.

- Melhoria na qualidade dos produtos

Na segunda geração de produtos transgênicos, que estamos vivendo agora na pesquisa, os esforços estão focados na obtenção de produtos com melhor qualidade nutricional. Assim, variedades com uma melhor composição de ácidos graxos no óleo, e de aminoácidos na proteína, vem sendo obtidas, além de incrementos nos níveis de diversos tipos de vitaminas. A melhoria na qualidade dos grãos alimentares pode auxiliar na redução dos elevados índices de desnutrição nos países sub-desenvolvidos e em desenvolvimento. Por exemplo, o "arroz dourado", obtido através da engenharia genética, produz dezenas de vezes mais ferro nos grãos, do que as variedades convencionais. Este tipo de produto pode ser um grande auxílio para o combate a anemia em muitos países da África, e em algumas regiões do nordeste brasileiro, onde o arroz é à base da alimentação da população mais pobre. Também nos países desenvolvidos, a melhoria na qualidade dos produtos agrícolas pode contribuir para que a população consuma produtos mais saudáveis. Um exemplo é a soja rica em ácido oléico, cujo óleo além de ser mais estável é mais saudável. A melhoria na qualidade dos produtos que serão utilizados na fabricação de ração para os animais pode melhorar a conversão alimentar, reduzindo além dos custos, a quantidade de dejetos produzidos, com claros benefícios para o meio ambiente. Além disso, na chamada terceira geração de produtos transgênicos, os grãos utilizados na formulação de rações poderão conter vacinas para diversos tipos de doenças.

Riscos associados às plantas transgênicas

- Riscos a saúde humana

Não existe nenhum relato de que plantas transgênicas provoquem danos a saúde. O principal foco dos opositores da tecnologia de plantas transgênicas aponta para o risco de surgirem doenças resistentes a alguns antibióticos. Isto se deve ao fato de que o plasmídio utilizado para a transformação das plantas geralmente contém também um gene para resistência a um antibiótico. Especialistas da área de saúde tem afirmado que em pessoas que consomem muitos produtos transgênicos, o gene para resistência ao antibiótico poderia passar do alimento para as células do seu organismo. Por este motivo, as técnicas atuais de transformação de plantas, utilizadas para a obtenção de plantas transgênicas não utilizam mais plasmídios com genes para resistência a antibióticos. Outra questão comumente abordada é a de que os transgenes podem produzir compostos alergênicos a certas pessoas. Ou seja, se algumas pessoas são alérgicas a batata, e o milho for transformado com o gene da batata que provoca alergia, estas pessoas também terão alergia ao consumirem este milho. Por este motivo, cada evento deve ser avaliado individualmente, e os órgãos que regulamentam a liberação das plantas transgênicas para o cultivo e comercialização têm condições de avaliar todos os potenciais riscos de um determinado evento. No Brasil isto é feito pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que é uma comissão especial do Ministério da Ciência e Tecnologia que regulamenta as atividades relacionadas com pesquisa, transporte e comercialização de organismos transgênicos e seus derivados. Todo evento transgênico antes de ser liberado, deve apresentar, entre outras características de segurança, o que se chama de "equivalência substancial", que significa que o alimento produzido com este produto é substancialmente equivalente ao alimento produzido pela mesma espécie vegetal, não transgênica.

- Riscos para o ambiente

Existe grande polêmica quando se trata dos riscos das plantas transgênicas ao ambiente. Por exemplo, para o caso do uso da toxina do Bt, alguns setores apontam para o risco das pragas tornarem-se resistentes ao Bt, uma vez que estão constantemente em contato com o produto, diferentemente de quando o Bt é pulverizado na lavoura, quando o contato é por um tempo menor. O uso continuado, e em extensas áreas contínuas, de plantas com a tecnologia Bt pode exercer uma forte pressão de seleção, cujo resultado poderá ser insetos resistentes ao Bt. Até o momento não foi registrado nenhum caso de resistência de insetos ao Bt, obtido em função do uso de plantas transgênicas ou da pulverização do inseticida nas lavouras. Mas para prevenir o surgimento de insetos resistentes, os obtentores tem recomendado o cultivo de cerca de 20% da área com variedades sem o gene Bt, para servir como refúgio para os insetos, e diminuir a pressão de seleção. Nestas áreas, o controle convencional dos insetos, com o uso de inseticidas químicos ou biológicos, deve ser utilizado.
Se por um lado alguns grupos estão preocupados com a perda de eficiência do Bt, pelo surgimento de insetos resistentes, outros estão preocupados com o efeito do Bt sobre insetos não-alvo. Um exemplo clássico é o da borboleta monarca, nos Estados Unidos. Um estudo feito em laboratório, por pesquisadores da Universidade de Cornell demonstrou que larvas desta borboleta alimentadas com pólen de milho Bt apresentavam maior mortalidade do que aquelas alimentadas com pólen de milho sem o gene Bt. Este trabalho, publicado na revista Nature em 1999, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, causou grande impacto, e gerou muita polêmica. Embora os próprios autores afirmassem em seu trabalho que a pesquisa não representava as condições naturais de alimentação da lagarta, este trabalho forneceu subsídios para os oponentes das plantas transgênicas para combaterem ainda mais fortemente esta tecnologia. Recentemente foram publicados estudos mais completos, levando em conta os hábitos alimentares da lagarta. Estes novos estudos concluíram que a mortalidade deste inseto, que na fase adulta é uma borboleta ornamental muito bonita, é menor do que 1% em lavouras cultivadas com milho Bt, ou seja, muito menor do que com o uso de inseticidas.
Outra questão importante do ponto de vista ambiental é a possibilidade de transferência dos genes que conferem resistência a herbicidas, para as plantas daninhas, por hibridação natural. Neste caso, poderia ser criada uma superplanta daninha. Esta também é uma questão a ser avaliada pelo órgão que regulamenta as plantas genéticas (CTNBio, no Brasil), antes de liberar uma variedade transgênica para o cultivo. Por exemplo, no Brasil não há relato de nenhuma planta daninha que se tenha hibridado (por cruzamento natural) com a soja. Também no Brasil não existem, em condições naturais, os parentes silvestres do milho. Então praticamente não há risco destas culturas transferirem seus genes para outras espécies. Já no México, que é o centro de origem do milho, existem muitos parentes silvestres do milho, e o uso de milho transgênico neste país deve ser visto com cautela.

Considerações finais

A opinião das pessoas, a respeito dos transgênicos, é bastante variável. Nos Estados Unidos, a grande maioria das pessoas é favorável aos transgênicos, pois os americanos confiam no seu departamento de controle dos alimentos, que é muito rigoroso e competente. Já na Europa, as pessoas são extremamente vigilantes a esse respeito, e boa parte da população é contrária ao uso de transgênicos Isto se deve ao fato de que na Europa, especialmente depois dos surtos de doenças tais como a da "vaca-louca", a população não confia em seus órgãos de fiscalização, e insiste em observar a qualidade dos alimentos que consome, e sua procedência. Por este motivo, tendem a rejeitar tudo o que lhes parece novo ou estranho.
À luz da ciência, cada evento deve ser analisado individualmente. Não se pode generalizar com relação a este assunto. Os órgãos responsáveis pela regulamentação e liberação de plantas transgênicas para o cultivo são muito rigorosos em sua análise, e somente liberam um determinado produto quando ficar comprovado que este não irá a causar prejuízos para a saúde ou para o ambiente. A CTNBio, no Brasil, é um órgão bastante competente e rigoroso em suas análises. Desta forma, não se espera que produtos que não sejam seguros venham a ser liberados no Brasil. Atualmente vivemos o que se convencionou chamar de primeiras e segundas gerações das plantas transgênicas. Na primeira geração, as plantas transgênicas apresentam-se pouco modificadas em relação às variedades convencionais, adicionadas apenas de genes que conferem resistência a pragas, doenças ou tolerância a herbicidas. Na segunda geração, alterações na qualidade dos grãos foram introduzidas. Estas características têm contribuído para aumentar a produtividade ou lucratividade dos produtores, e melhorar a qualidade dos alimentos. A terceira geração será a de produzir remédios através das plantas, tornando as plantas verdadeiras biofábricas. Hoje já é possível purificar, por exemplo, insulina humana a partir de grãos de milho. Também é possível produzir grãos de milho que possuam a vacina da coccidiose para colocar na ração de frangos. No futuro, as plantas além de servirem como alimentos, também serão biofábricas, produzindo desde remédios até fibras especiais, o que com certeza facilitará muito a vida em nosso planeta.



Fonte: Ivan Schuster Eng. Agr. D.S. Genética e Melhoramento de Plantas Pesquisador do Setor de Biotecnologia da COODETEC