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O AGRONEGÓCIO EM TEMPO DE CRISE.

O AGRONEGÓCIO EM TEMPO DE CRISE. O agronegócio em tempo de crise .



Além de estar sujeita às intempéries climáticas periodicamente, a agricultura tem que driblar efeitos de crises financeiras. Foi assim ao longo das décadas de 1980 e 1990, com o congelamento de preços, inflação e sucessivos planos econômicos. E agora não é diferente. Enquanto o país acumula recordes nas safras de grãos, surge a crise financeira mundial ameaçando o plantio e a comercialização.

Apesar de o quadro de dificuldades e de previsões pessimistas de algumas autoridades e mesmo de especialistas, até o momento o agronegócio brasileiro tem reagido positivamente. Isso se deve principalmente ao dinamismo do setor, que sendo a base econômica de mais de quatro mil municípios, proporciona o superávit da balança comercial, e ainda financia o déficit dos demais setores da nossa economia.

Mesmo que haja divergência sobre a intensidade da crise, a expectativa é que todos os países serão afetados, em menor ou maior dimensão. Afinal, reduzindo o crescimento mundial, as exportações também recuam, enxugando mercados até então com grande potencial de expansão, como o da China, da Rússia e de países do Oriente Médio, importantes consumidores de produtos agropecuários.

O primeiro impacto da crise financeira foi a queda generalizada de preço no mercado mundial das commodities agrícolas, em função da diminuição de compras futuras e do aumento do custo de carregamento de estoques. Esse processo afetou as tradings e outras instituições de crédito privado que financiam segmentos do setor rural, principalmente no Centro-Oeste brasileiro. Quase 60% da produção agropecuária do Estado de Mato Grosso, por exemplo, dependiam destas instituições.

Mesmo sob impacto da crise, o Brasil plantou uma área equivalente a do ano anterior e tem a estimativa de queda na produção de 8%, o que significa voltar ao nível da penúltima safra. O recuo se dará principalmente na produtividade, devido à diminuição do uso de tecnologia e de fertilizantes. Vale lembrar, no entanto, que a seca que vem atingindo o sul do país também contribuiu para esse resultado. Não obstante os prejuízos enfrentados pelos produtores de feijão, soja e milho, considerando o recorde de crescimento da safra anterior, de 9%, o recuo da safra, em termos de Brasil, ainda pode ser visto como suportável.

Merece destaque, porém, o caso do algodão, que, assim como o café, ficou de fora da melhoria dos preços nos últimos dois anos. Na verdade, os preços estão nos piores níveis desde 2003, com uma queda de 25% na área de plantio, e sem perspectiva de aquecimento do mercado neste momento.

No caso do milho, o baixo preço no mercado externo e o alto estoque interno foram responsáveis pela diminuição da área de plantio. Porém, a quebra da safra, em função da seca no sul do país, e a recuperação dos preços nas últimas semanas, melhoram a perspectiva desta commodity. É bom lembrar que o milho é extremamente importante, pelos subprodutos gerados, que se destinam à alimentação humana e à cadeia de frangos e suínos.

Ainda em relação ao milho, a preocupação atual é quanto ao plantio da safrinha, que no ano passado foi produzida em um valor elevado e até aqui se mostra sem tendência positiva. Situação que indica a necessidade de oferecer uma política de crédito específica ao produtor, pois sem apoio, ele não vai plantar.

A variação de preços e o fluxo da produção são preocupações do governo federal. Garantir a comercialização da safra será vital para evitar novos prejuízos para o setor e para a economia. Sabe-se que, embora os estoques mundiais de alimentos estejam baixos, o investimento para recompô-los é muito alto. E, sem recursos, os países vão comprar "da mão para a boca", o que pode dar margem ao oportunismo de grandes corporações.

O contexto, que deixa apreensivos governo e setor rural, indica que o atual modelo de crédito agrícola está esgotado, sendo preciso adotar medidas que perpassem as crises e blindem a agricultura. Para isso, devemos rever as políticas de garantia, de preços e do seguro rural. Vale lembrar que a última reestruturação das dívidas do setor ocorreu, em junho, sob perspectivas extremamente otimistas, com mercado e preço aquecidos. E esse cenário não se concretizou.

Regularizar a situação do produtor junto ao agente financeiro permite que ele volte a ser adimplente e consiga ter acesso ao crédito. A dívida rural se acumula há mais de 20 anos com constantes renegociações. E esta dívida surgia normalmente por duas questões principais: climáticas e de mercado. No caso de problemas com o clima, a baixa cobertura do seguro nos últimos anos acabou endividando o produtor. Já a questão de mercado ocorre quando o produtor planta com preço bom, mas depois o preço cai e o ele não consegue cobrir o custo do plantio. Temos que encontrar um novo caminho, um novo modelo. Um grupo de especialistas estuda o assunto, reunindo o Ministério de Agricultura, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Federação dos Bancos, Banco do Brasil e Ministério da Fazenda.

A crise reforça as dificuldades que vamos enfrentar em 2009 e nos obriga a agir de forma mais rápida. Até aqui, a agricultura tem mostrado capacidade para atravessar esse período de turbulência e um exemplo são as perspectivas positivas para produtos como soja, carne, açúcar, feijão e arroz. Além disso, levando em consideração a existência de crises, numa série histórica de três décadas, as projeções mostram que o Brasil manterá a liderança no mercado mundial e o mercado interno será um grande fator de crescimento.

Para os próximos 10 anos, a previsão é que a demanda no mundo vai crescer 50%; um aumento extraordinário. E o Brasil tem o melhor acervo tecnológico entre os países tropicais, profissionais qualificados e terras agricultáveis disponíveis, hoje ocupadas por pastagens que poderão ser remanejadas, com ganhos de produtividade. Temos condições de garantir o abastecimento interno e ampliar ainda mais as exportações dos produtos do agronegócio, que hoje já chegam a mais de 180 países.

Reinhold Stephanes é ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Fonte: VALOR ECONÔMICO.